Edgar de Souza
participa de importantes mostras no Brasil e no exterior, é considerado um dos
mais EMBLEMÁTICOS artistas brasileiros da sua geração.
O artista criou para Inhotim uma instalação a partir de três
de suas obras mais importantes, de uma série de esculturas em bronze,
acomodando-as pela primeira vez no jardim, formando uma espécie de piazzetta.
As três estátuas de bronze
representam uma figura masculina nua em diferentes posições. Baseadas no
corpo do próprio artista, as esculturas poderiam ser consideradas
auto-retratos, embora a ausência de características na face abra interpretações.
Agrupadas pelo artista
sobre uma mesma base elíptica de concreto, as três esculturas de Edgard
de Souza aqui reunidas são apresentadas
juntas pela primeira vez em Inhotim. As esculturas são
parte de uma série em bronze fundido, que
inclui outras peças e foi desenvolvida pelo artista ao longo da
década de 2000.
Articuladas
numa elegante disposição linear, as esculturas sugerem,
num primeiro momento a leitura de um movimento contínuo, que se revela, numa
observação mais detida, como fragmentado e sem uma óbvia relação de causa e efeito
entre cada uma das poses. Estas são
impossíveis e abstratas, sugerindo tanto pulsão
quanto introspecção, mas também fragmentação e
fusão de corpos.
Desde o final dos anos 80, Edgard de Souza vem construindo um conjunto de obras marcado por uma qualidade artesanal e um ritmo lento de produção que se destaca da escultura contemporânea de grande escala. Em suas esculturas de bronze, o artista obtém uma superfície lisa e uma grande precisão nas formas, a partir de um primoroso processo de desbaste executado pelo próprio em blocos monolíticos de gesso e que confere às obras um aspecto nobre e sedutor.
A história da arte e as questões
ligadas à corporeidade e à auto-representação têm norteado a sua
produção. Aqui, de certa forma, o artista
revisita a tradição da estatuária retratista de bronze,
que povoou os jardins e espaços públicos
europeus entre os séculos XVII e XIX.
Pintor, escultor,
desenhista e gravador
Inicia estudos artísticos
na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, em São
Paulo; licencia-se em 1984. Na faculdade, entra em contato com artistas ligados
à arte conceitual, em especial Nelson Leirner.
Além de objetos
tridimensionais, executa desenhos, gravuras e pinturas. Entre 1998 e 1999,
elabora uma série de cibachromes, técnica fotográfica na qual o artista se
retrata em luta e interação consigo mesmo. Desde a década de 90, participa de
importantes mostras no Brasil e no exterior. Em 2000, a editora Cosac &
Naify publica o livro Edgard de Souza, de autoria do crítico Carlos Basualdo.
Comentário Crítico
A obra de Edgard de Souza
parte da descontextualização de objetos cotidianos. Nessa operação o artista
busca desestabilizar conceitos e convenções sobre arte, propondo um novo olhar
sobre objetos e formas que estão à volta e a construção de novos sentidos e
significados.
Esse pensamento está fortemente ligado a propostas da arte
conceitual, possivelmente relacionadas a sua formação, com artistas como Regina Silveira (1939)
e Nelson
Leirner (1932), no curso de artes plásticas da Fundação Armando
Álvares Penteado - Faap.
Entre 1989 e 1990 produz obras nas quais utiliza
materiais como pele de vaca, cobra e carneiro, madeira, espuma e veludo, que
indicam formas de mobiliários e são apresentadas de maneira inusitada e
irônica.
Outro importante aspecto
de sua obra é a produção de objetos e esculturas que remetem ao corpo humano.
São formas que se aproximam do imaginário surrealista, ambíguas e fragmentadas,
com indícios e vestígios da corporalidade, causando simultaneamente
familiaridade e estranhamento.
Desejo, sensualidade,
sexualidade e erotismo são aspectos que adquirem materialidade em suas obras e
provocam no espectador a percepção de si mesmo e de sua condição humana, seu
corpo, sensações, experiências e memórias. No fim da década de 1990, o artista
produz uma série de fotografias, nas quais trabalha com a própria imagem, que
geram significados ambíguos e opostos: atração e repulsa, espelhamento e
estranhamento, identidade e alteridade, ruptura e unidade.
Críticas
"Objetos erotizados é
talvez a descrição mais apropriada do trabalho de Edgard de Souza. Peças de
mobília feitas de madeira, estofadas de maneira impecável, meticulosamente
recobertas de peles ou veludos, Souza constrói objetos sensuais que pairam
entre as paredes e o chão, nem exatamente como objetos funcionais nem como arte
minimalista.
Enquanto o cuidado e o
entalhe característicos da construção dessas formas sugerem propósito e
intenção claros, eles desafiam qualquer uso ou aplicação. Existe, ao mesmo
tempo, uma ética artesanal bizarra no seu trabalho. Obsessivamente construídos
no decorrer de longos períodos, os processos exaustivos de cortar, colar,
lixar, polir, pintar, dispor as camadas de madeira usadas para produzir suas
obras parecem atuar como uma forma de sublimação.
Maravilhosamente
construídas a partir de madeira compensada e pintadas num delicioso tom creme,
outras obras como Gota (1996) e Pérola (1994) têm a aparência de carne pálida e
nua. A textura lisa das tintas sintéticas e dos esmaltes também lhes dá uma
qualidade escorregadia e erótica. No entanto, é um erotismo de vulnerabilidade
e medo. Bagos (1996) consiste de duas bolas de madeira retorcidas no interior
de um invólucro de couro negro como um objeto violentamente sexualizado,
enquanto Abrigo (1993), uma enorme estrutura que lembra um feto, funciona como
uma espécie de útero protetor".
Benjamin Genocchio
GENOCCHIO, Benjamin. Be(com)ing. In: MATERIAL,
immaterial. Curadoria Benjamin Genocchio; texto Lisette Lagnado, Anthony Bond.
Sydney: Art Gallery of New South Wales, 1994. p. 20-22.
"Outros artistas
surgidos a partir dos anos 80 também mantêm em suas produções relações
extremamente fortes com os princípios que marcaram a geração anterior, da qual
emergiram seus agentes formadores. Nesse sentido, as produções de Iran do
Espírito Santo e de Edgard de Souza são verdadeiramente exemplares.



























