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quinta-feira, 30 de junho de 2016

CINEMA - INTO THE WILD


NA NATUREZA SELVAGEM

A solidão é um tema frequentemente abordado no cinema e, na minha opinião, um dos mais interessantes também. Principalmente quando ela é tratada de uma forma tão profunda e reflexiva como no longa “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, no original).

Baseado na história real do viajante americano Christopher McCandless, o filme narra a história de um jovem que decidiu se afastar do convívio em sociedade, trocando a humanidade pela natureza. 




A HISTÓRIA DE CHRISTOPHER

(O objetivo desse artigo é contar um pouco mais da história de Christopher McCandless, trazer informações, curiosidades, fotos reais dos locais por onde ele passou e dele mesmo. Um filme obrigatório para todo mochileiro!)

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Depois de se formar, ele abandona seus pais e a irmã e parte numa viagem em direção ao Alasca com apenas uma mochila nas costas e com o propósito de se auto-descobrir, já que diz não querer fazer parte de uma sociedade injusta e que valoriza o dinheiro acima de tudo. E é justamente a trajetória do rapaz até o seu destino final que acompanhamos no filme.


“Se admitirmos que a vida humana possa ser regida pela razão, então está
destruída toda a possibilidade da vida.”

“Você não precisa de relacionamento humano para ser feliz, Deus colocou tudo
à nossa volta.”
(Alexander Supertramp)


“Os egoístas estão todos na fila acreditando e esperando para nos comprar mais tempo/ eu, percebo a cada suspiro, apenas tenho minha mente/ o norte é para o sul como o relógio é para o tempo/ há leste e oeste/ e vida por toda parte/eu sei que nasci/e sei que vou morrer/o entre isso é meu
eu sou meu/ e o sentimento/ foi deixado para trás/ toda a inocência perdida de uma vez/ mensagens importantes no olhar/não é preciso se esconder estamos seguros esta noite”.
(I am Mine – Pearl Jam)


filme


A verdade é que, mesmo não admitindo cem por cento, McCandless estava simplesmente fugindo de seu passado e pretendia encontrar alguma forma de preencher o vazio interior deixado pela relação conturbada com os pais. E ao longo dessa procura por algo que o completasse como ser humano, o jovem acabou descobrindo também o lado “cruel” daquilo que ele julgava ser a solução perfeita para os seus problemas, a natureza.

Citando o poeta Lord Byron logo no início da projeção com a frase “amo não menos o homem, mas mais a natureza”, McCandless se relaciona com todos os tipos de pessoas que surgem no seu caminho e demonstra que ele tem, sim, certo interesse em estabelecer ligações com elas, apesar de acreditar que a verdadeira felicidade não pode ser encontrada nas relações humanas. E é justamente essa diversidade de pessoas que ele encontra em seu caminho e suas experiências de vida, que fazem o rapaz enxergar, aos poucos, que existem coisas na vida que podem superar os “males da sociedade”.

Esforçando-se para jamais criar raízes onde quer que esteja, o andarilho demonstra verdadeira aversão ao conceito de lar e a todas as demais regras da sociedade. E a cena que mostra ele mesmo se enxergando como um indivíduo pertencente dessa sociedade é umas das melhores sacadas do filme.


Mas o ponto principal do longa é que ele ilustra o protagonista de uma forma bem humana e nos mostra também o seu lado egoísta. Mesmo tendo uma relação problemática com seus pais, o fato de deixá-los sem notícias por anos é um castigo um tanto quanto cruel. Além disso, o fato de ele queimar dinheiro se mostra muito mais um ato simbólico de ser contra o materialismo, do que uma atitude realmente relevante, como seria se ele doasse o dinheiro a indivíduos necessitados, por exemplo.

Em sua segunda experiência na direção (o primeiro filme dirigido por ele foi “A Promessa”), Sean Penn demonstra ter grande sensibilidade na forma como ele conduz a narrativa e os próprios personagens. Como por exemplo a nômade Jan (Catherine Keener), uma mulher que tenta esconder as dores do passado em uma vida aventureira; e o velinho vivido por Hal Holbrook, que nos emociona ao interpretar um indivíduo que deixou de viver simplesmente pelo medo de sofre e que, através de McCandless, consegue enxergar novas possibilidades diante do mundo.

Emile Hirsch também surpreende com sua atuação. Conhecido por atuar, na maioria das vezes, em filmes fracos e clichês, em “Na Natureza Selvagem” ele surpreende ao mostrar uma performance magnífica com toda a sua simplicidade. Sem abusar de grandes expressões exageradas, ele ilustra a alma contraditória e amargurada do jovem andarilho através do olhar, que nos transmite claramente sua atração pela solidão e o seu desencantamento diante do mundo capitalista. Além disso, sua transformação física ao longo da narrativa é chocante, e a semelhança do ator com o verdadeiro Chris é realmente impressionante.

“Dois anos ele caminha pela Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. Liberdade total. Um extremista. Um inusitado viajante cujo lar é a estrada. Fugiu de Atlanta. Não deseja voltar porque o Oeste é o melhor. E agora depois de dois anos de caminhada aproxima-se a grande e final aventura. A culminante batalha para matar o falso ser interior e vitoriosamente concluir a revolução espiritual. Dez dias e noites de comboios de mercadorias e de boléias trazem-no para o grande norte branco. Sem continuar a ser envenenado pela civilização ele foge e caminha solitário pela terra para se perder em meio à natureza selvagem.”

“Você sabe, falo de livrar-se desta sociedade doente… Sabe o que eu não entendo? Porque as pessoas, todas as pessoas, são sempre tão más umas com as outras. Não faz sentido. Julgamento. Controle. Todas estas coisas… De que pessoas estamos falando? Você sabe, pais, hipócritas, políticos, canalhas.”
(Christopher McCandless/Alexander Supertramp)



A direção de Sean Penn é surpreendente, conseguiu produzir um excelente filme que jamais vou esquecer. O filme é baseado no livro de Jon Krakauer, um jornalista que sempre se identificou muito com a história e a personalidade de McCandless. O jornalista teve uma longa negociação até a família concordar em contar fatos sobre a vida de McCandless. E a trilha sonora de Eddie Vedder, que sempre admirei e sempre vou admirar como pessoa e como artista, é um dos melhores pontos estéticos do filme. (Aliena Gratia)


A fotografia também merece destaque. Filmado nos locais reais da jornada de McCandless, o longa nos apresenta paisagens magníficas que fazem qualquer um, se não querer fazer o mesmo que o protagonista, pelo menos entender a sua escolha. Além disso, não posso deixar de comentar a excelente trilha sonora feita por Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, que se colocou por inteiro na alma do andarilho. Cada música foi composta especialmente para o filme e acompanham perfeitamente o ritmo da narrativa com letras espetaculares. (E você pode conferir um trecho do filme com a trilha sonora aqui.)

Mas o diferencial do filme, em minha opinião, está no modo como Christopher se relaciona com as pessoas que vai conhecendo pelo caminho e como aos poucos ele vai percebendo que seu ato impulsivo também tem suas desvantagens. Mesmo se forçando a manter uma superficialidade em todas as suas relações, é belíssima a forma como ele descobre que toda aquela felicidade plena que ele tanto almejava não existe se não for compartilhada. “Happiness is only real when shared”.

Para quem viu o filme matar a saudade e para quem não viu ver o mais rápido possível: http://fyeahintothewild.tumblr.com/


Ficha Técnica

Título Original: Into the Wild
País/Ano: EUA/2007
Gênero: Drama
Duração:140 minutos
Direção: Sean Penn
Roteiro: Sean Penn, baseado em livro de Jon Krakauer
Fotografia: Eric Gautier
Elenco: Emile Hirsch (Christopher McCandless), Jena Malone (Carine McCandless), Kristen Stewart (Tracy), Vince Vaughn (Wayne Westerberg), Marcia Gay Harden (Billie McCandless), William Hurt (Walt McCandless), Catherine Keener (Wayne Westerberg), Zach Galifianakis (Kevin).

Por Mariana Keller, jornalista

*Postagens: Livros & Bolinhos / Aliena Gratia

*Imagens: Reprodução





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